Procrastinação e autocrítica: quando a culpa começa a tirar o brilho da vida.

Existe uma coisa sobre a procrastinação que quase nunca aparece quando falamos sobre produtividade.

Falamos sobre tarefas atrasadas.

Sobre metas que não conseguimos cumprir.

Sobre listas que ficam pela metade.

Sobre aquele projeto que sempre deixamos para amanhã.

Mas, existe uma consequência silenciosa da procrastinação que pode ser ainda mais difícil de perceber: a autocrítica.

E quando passamos muito tempo nos criticando, algo curioso acontece: não é apenas a nossa relação com as tarefas que muda.

A nossa relação com a própria vida também começa a mudar.

É aí que a autocrítica começa a ocupar espaço demais.

“Eu nunca termino nada.”

“Eu não tenho disciplina.”

“Eu sempre deixo tudo para depois.”

“Por que eu sou assim?”

“Todo mundo consegue, menos eu.”

E, pouco a pouco, a procrastinação deixa de ser apenas um comportamento.

Ela começa a se transformar em uma forma de enxergarmos quem somos.

Quando procrastinar começa a pesar mais do que a tarefa

Talvez você já tenha vivido isso: Você tem algo importante para fazer.

Sabe que precisa começar.

Pensa sobre aquilo durante horas, dias ou até semanas.

Adia.

Promete que amanhã vai fazer.

O Amanhã chega. Você adia novamente.

No início, parece apenas uma tarefa que ficou para depois.

Mas, depois de algum tempo, começa a surgir um sentimento diferente.

Você já não está apenas preocupada com a tarefa.

Está decepcionada consigo mesma.

E talvez essa seja uma das partes mais difíceis da procrastinação e da autocritica: o peso emocional que pode surgir depois do adiamento.

A tarefa continua ali.

Mas agora vem acompanhada de culpa.

E a culpa traz a cobrança.

A cobrança traz a autocrítica.

E a autocrítica começa a alimentar pensamentos negativos sobre nós mesmos.

“Eu deveria ter feito.”

“Eu sabia que isso iria acontecer.”

“Eu nunca consigo.”

“Eu sou muito desorganizada.”

“Eu não tenho força de vontade.”

Quanto mais repetimos essas frases, mais começamos a acreditar nelas.

Procrastinação e autocrítica podem criar um ciclo

procrastinação e autocrítica
Fonte: Vivendo fora do automático

 

A procrastinação e a autocrítica pode criar um ciclo difícil de interromper.

Primeiro, adiamos algo.

Depois, sentimos culpa.

Em seguida, começamos a nos criticar.

A autocrítica aumenta a sensação de incapacidade.

Então a tarefa parece ainda mais difícil.

E, diante do desconforto, procrastinamos novamente.

É como se estivéssemos tentando fugir daquilo que precisamos fazer, mas também fugindo da sensação desagradável que sentimos quando pensamos naquilo.

E quanto mais adiamos, mais pesada a tarefa parece.

Não necessariamente porque ela ficou maior.

Mas porque agora carregamos junto medo, culpa, cobrança e frustração.

Quando começamos a acreditar que o problema somos nós

Existe uma diferença enorme entre pensar:

“Eu procrastinei essa tarefa.”

e pensar:

“Eu sou uma procrastinadora.”

A primeira frase descreve um comportamento.

A segunda começa a definir uma identidade.

E talvez seja aí que precisamos prestar atenção.

Todos nós podemos adiar coisas.

Podemos perder prazos.

Podemos começar projetos e não terminar.

Podemos ter períodos em que nossa rotina não funciona como gostaríamos.

Isso faz parte da experiência humana.

Mas quando transformamos um comportamento em uma definição sobre quem somos, podemos começar a carregar uma identidade que talvez não corresponda à nossa realidade.

Eu procrastinei.

Não significa:

Eu sou incapaz.

Eu não consegui cumprir uma meta.

Não significa:

Eu nunca vou conseguir.

Eu abandonei um projeto.

Não significa:

Eu nunca termino nada.

Parece uma diferença pequena.

Mas não é.

A maneira como conversamos conosco pode mudar completamente a maneira como enxergamos nossas próprias possibilidades.

A procrastinação e a autocrítica podem tirar o brilho das coisas

E talvez seja aqui que a história fique ainda mais profunda.

Quando passamos muito tempo nos criticando, não começamos a criticar apenas nossas tarefas.

Começamos a criticar tudo.

A nossa rotina.

O nosso trabalho.

A nossa aparência.

As pessoas.

Os encontros.

Os lugares.

As escolhas.

A vida.

Nada parece suficientemente bom.

Você consegue alguma coisa, mas imediatamente pensa no que faltou.

Sai com alguém, mas depois pensa no que não gostou.

Conquista uma meta, mas já começa a pensar na próxima.

Recebe um elogio, mas acredita que a pessoa está exagerando.

Tem um dia bom, mas encontra alguma coisa para reclamar.

E, pouco a pouco, parece que tudo vai perdendo o brilho.

Talvez não porque tudo tenha realmente piorado.

Mas porque nossos olhos estão acostumados a procurar aquilo que está errado.

Quando nada parece bom o suficiente

A autocrítica excessiva pode fazer com que a nossa percepção da vida fique cada vez mais rígida.

É como se existisse dentro da nossa cabeça uma espécie de avaliador permanente.

Ele observa.

Compara.

Corrige.

Aponta defeitos.

Encontra problemas.

E raramente está satisfeito.

Você olha para o seu trabalho e pensa:

“Eu poderia ter feito melhor.”

Olha para sua casa:

“Está sempre bagunçada.”

Olha para o seu corpo:

“Preciso mudar.”

Olha para sua rotina:

“Não sou produtiva o suficiente.”

Olha para outras pessoas:

“Todo mundo parece estar vivendo melhor do que eu.”

Olha para si mesma:

“Eu deveria estar mais avançada.”

E assim vamos criando uma vida em que nada parece suficiente.

Não porque não existam coisas boas.

Mas porque estamos sempre procurando o que falta.

A comparação também alimenta a autocrítica

As redes sociais podem tornar esse processo ainda pior.

Todos os dias vemos pessoas acordando cedo

treinando

trabalhando

viajando

empreendendo

estudando

cuidando da alimentação

construindo relacionamentos e realizando sonhos.

E, mesmo sabendo racionalmente que estamos vendo apenas pequenos recortes da vida dessas pessoas,

podemos acabar comparando o nosso bastidor com o palco delas.

“Por que eu não consigo?”

“Por que minha vida, não é assim?”

“Por que ainda não cheguei lá?”

“Será que estou ficando para trás?”

Quando já estamos lidando com procrastinação, essa comparação pode ser ainda mais cruel.

Porque além de adiar aquilo que queremos fazer, começamos a acreditar que deveríamos estar muito mais adiante.

E em algumas situações, a procrastinação e a autocrítica pode estar relacionada ao perfeccionismo.

Quando acreditamos que precisamos fazer algo perfeitamente, começar pode se tornar assustador.

Se não posso fazer perfeito, talvez seja melhor não fazer.

Se existe a possibilidade de errar, talvez seja melhor esperar.

Se ainda não estou preparada, talvez seja melhor deixar para amanhã.

E o amanhã chega.

Depois chega outro amanhã.

E aquilo que poderia ter sido apenas uma pequena tarefa começa a se transformar em uma fonte de ansiedade e culpa.

O perfeccionismo pode fazer com que estabeleçamos padrões tão altos que qualquer resultado pareça insuficiente.

E isso também pode afetar a forma como enxergamos a vida.

Porque se nada pode ser apenas bom, tudo precisa ser extraordinário.

E viver dessa maneira é cansativo.

Talvez você não precise de mais cobrança

Será que uma pessoa que já passa o dia inteiro se cobrando precisa realmente de mais cobrança?

Com certeza não.

O que ela precisa é de compreensão.

Isso não significa abandonar responsabilidades ou aceitar que tudo fique para depois.

Significa olhar para o próprio comportamento com curiosidade em vez de imediatamente transformá-lo em um defeito de caráter.

Em vez de:

“Por que eu sou tão preguiçosa?”

Talvez perguntar:

“O que está tornando essa tarefa tão difícil para mim?”

Em vez de:

“Eu nunca consigo fazer nada direito.”

Talvez:

“O que eu posso fazer diferente da próxima vez?”

Em vez de:

“Eu estraguei tudo novamente.”

Talvez:

“O que posso aprender com o que aconteceu?”

A pergunta muda.

E, quando a pergunta muda, a nossa relação conosco também começa a mudar.

Talvez, o brilho não tenha desaparecido

Procrastinacao e autocritica
Fonte: Vivendo fora do Automático

 

Talvez, a vida não tenha perdido completamente o brilho.

Talvez você tenha passado tempo demais olhando para ela através das lentes da cobrança.

Quando tudo precisa ser melhor, nada parece bom.

Quando tudo precisa ser perfeito, o suficiente nunca basta.

Quando estamos sempre procurando o que está errado, até as coisas boas podem passar despercebidas.

Por isso, talvez o próximo passo não seja cobrar mais de si mesma.

Talvez seja olhar novamente.

Olhar para as pequenas coisas.

Para as pessoas que fazem bem.

Para os momentos simples.

Para aquilo que você conseguiu.

Para aquilo que aprendeu.

Para o caminho que já percorreu.

E também para tudo aquilo que ainda deseja construir.

Sem precisar transformar a própria vida em uma competição.

Sem precisar acordar amanhã sendo uma pessoa completamente diferente.

Apenas começando de onde você está.

Porque talvez viver fora do automático seja justamente isso:

Parar de olhar para si mesma apenas através daquilo que ainda falta.

E começar a enxergar também tudo aquilo que já existe.

Talvez o brilho não tenha desaparecido.

 

Leia também:

 

Por que procrastinamos? Entenda o que está por trás da procrastinação.

 

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Por aqui, compartilho reflexões sobre propósito, autoconhecimento, mudanças, hábitos, procrastinação e os desafios de viver uma vida que realmente faça sentido.

Não tenho todas as respostas. Estou aprendendo enquanto caminho.

E talvez seja justamente isso que significa, para mim, viver fora do automático: parar, olhar para dentro e começar a fazer escolhas mais conscientes.

Fique à vontade.

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