Por muito tempo, a palavra procrastinação me incomodou muito.
Eu acreditava que havia alguma coisa de muito errada comigo.
Na noite anterior, planejava todo o meu dia, ia dormir com muitas expectativas positivas, mas não conseguia compreender o que acontecia quando o despertador tocava as 4 horas da manhã.
(Minha meta era acordar mais cedo para estudar e fazer atividade física antes de sair para trabalhar, às 6h30hs).
Todavia, não conto as milhares de vezes em que esse planejamento foi fracassado com sucesso.
Minha mente fazia planos para levantar assim que o despertador tocasse, mas meu corpo parecia não responder aos estímulos.
Então, começavam os pensamentos:
“Vou dormir mais 15 minutos.”
“Hoje não. Estou cansada. Amanhã eu acordo.”
“Vou me organizar e estudar na hora do almoço ou, quando chegar à noite, estudo e tento fazer algum exercício físico.”
Em resumo, o despertador passava por diversas sonecas até as 6h30hs.
E, no final do dia, eu não tinha conseguido fazer nem 10% daquilo que havia me comprometido a fazer. E só sobravam remorsos e culpa por mais um dia não ter conseguido.
O que eu entendia por procrastinação?
Por muito tempo, procurei maneiras de combater a procrastinação.
Pesquisei técnicas, métodos e maneiras de criar novos hábitos. Fui à médicos para ver se era falta de vitaminas.
Fiz check-up de vitaminas e taxas hormonais.
Pesquisei sobre novos hábitos.
Criei cronogramas de atividades, com horários bem definidos.
“Tentei” mudar minha rotina.
Acordar cedo.
Na teoria, tudo parecia maravilhoso.
Então coloquei o despertador longe da cama.
A lógica era simples: se ele estivesse no outro cômodo, eu precisaria levantar para desligá-lo.
E, uma vez em pé, começaria o meu dia.
Genial. Na teoria.
E na prática? Teve dias em que o despertador tocou até cansar.
Teve dias em que eu nem percebi que ele estava tocando.
E, na grande maioria das vezes, eu acordava completamente arrasada com aquele barulho, procurava alguma justificativa e começava uma negociação mental:
“Só mais cinco minutos.”
E dormia novamente.
Depois vinha a culpa.
“Não tenho disciplina.”
“Nunca consigo manter nada.”
“Começo e abandono.”
“Sou procrastinadora.”
E o ciclo começava outra vez.
O que nos dizem sobre Procrastinação?

O que nos dizem sobre Pro
“Acabe com sua procrastinação seguindo estes passos.”
“Criei um método para você deixar de procrastinar hoje.”
“Descubra por que você procrastina.”
“Seu problema pode ser falta de disciplina.”
“Você precisa acordar mais cedo para alcançar seus objetivos.”
E, de repente, estava cercada por conteúdos e ideias que reforçavam a sensação de que o problema era simples e fácil de resolver.
E é aí que a autocrítica chega e começa a fazer morada dentro da nossa mente.
Como não se sentir culpada, se você não consegue acordar às 5 horas da manhã para correr ou malhar?
ou sentir-se atrasada porque ainda não conseguiu o emprego dos sonhos?
Como não pensar que está fazendo alguma coisa errada se você não é fitness, não é crossfiteira e muito menos tem vontade de participar de corridas de rua?
Pode parecer exagero quando colocamos dessa maneira, mas é exatamente assim que muitas mensagens sobre produtividade e desenvolvimento pessoal chegam até nós.
Existe um modelo de vida sendo vendido o tempo inteiro.
Acorde cedo.
Treine.
Medite.
Leia.
Trabalhe.
Empreenda.
Tenha uma alimentação perfeita.
Beba água.
Faça skincare.
Estude.
Tenha metas.
Tenha uma carreira de sucesso.
E, de preferência, faça tudo isso sorrindo.
Mas, e se nada disso me motivar?
Será que isso significa que sou preguiçosa?
Será que significa que não tenho disciplina?
Faça mesmo sem vontade. Será?
Durante muito tempo, acreditei naquela ideia de que não importa se você está com vontade.
Faça mesmo sem vontade.
Levante mesmo cansada.
Treine mesmo sem querer.
Continue mesmo quando estiver exausta.
E existe uma verdade nisso: nem sempre teremos motivação para fazer aquilo que precisamos fazer.
O problema aparece quando transformamos essa ideia em uma regra absoluta.
Existem dias em que realmente precisamos fazer algo mesmo sem vontade.
Mas também existem momentos em que a falta de vontade está tentando nos dizer alguma coisa.
Talvez seja cansaço.
Algumas vezes, excesso de cobrança.
Seja uma rotina incompatível com aquilo que somos.
Possa ser medo.
Insegurança.
Ou talvez simplesmente precisemos descansar.
Virando a chave: e se eu tentasse entender por que eu não conseguia.
Depois de diversas tentativas sem sucesso, comecei a tentar entender por que eu não conseguia.
Queria compreender o que estava por trás daquela dificuldade, mas dessa vez sem tantas culpas e cobranças.
Percebi que estava sempre buscando uma solução rápida para um problema que talvez fosse muito mais profundo.
Porque procrastinação não é apenas deixar algo para depois.
Às vezes, procrastinar pode estar relacionado ao medo de falhar.
À dificuldade de começar.
Ao perfeccionismo.
À falta de clareza.
À sensação de que determinada tarefa não faz sentido.
Ao excesso de tarefas.
Ao cansaço.
À ansiedade diante de uma obrigação.
Ou simplesmente à ausência de conexão entre aquilo que fazemos todos os dias e aquilo que realmente desejamos para nossa vida.
Isso não significa que toda procrastinação tenha uma única causa.
Muito menos que devemos usar isso como justificativa para nunca agir.
Significa apenas que talvez valha a pena olhar para nós mesmos antes de nos condenarmos.
O que estou evitando quando procrastino?
Quando mudamos a pergunta, mudamos também a maneira de olhar para nós mesmos.
Em vez de imediatamente encontrar mais um método de produtividade, podemos começar a observar.
Talvez, a pergunta “como acabar com a procrastinação?” não seja a primeira que precisamos fazer.
Talvez existam perguntas anteriores.
Por que estou adiando isso?
O que sinto quando penso nessa tarefa?
Estou cansada ou apenas sem motivação?
Essa meta realmente é minha?
Estou tentando vivendo uma vida que combina comigo ou apenas tentando cumprir o roteiro que aprendi?
Muitas vezes, algumas respostas são desconfortáveis. Mas, são justamente elas que nos ajudam a sair do automático.
Talvez sair do automático não seja simplesmente acordar às 5 horas da manhã, criar uma rotina “perfeita” ou conseguir fazer tudo aquilo que os gurus da produtividade dizem que devemos fazer.
Talvez seja algo mais profundo.
É começar a perceber por que fazemos o que fazemos.

É questionar algumas crenças.
Entender nossas necessidades.
É descobrir o que realmente importa.
É parar de comparar nossa vida com a rotina editada de outras pessoas. E reconhecer que disciplina pode ser importante, mas que disciplina sem sentido pode se transformar apenas em cobrança.
Não existe uma resposta única para a procrastinação.
Mas, existe algo que podemos fazer: parar de olhar para nós mesmos apenas através da culpa.
Talvez combater a procrastinação não signifique lutar contra quem somos.
Talvez signifique compreender nossos comportamentos, reconhecer nossas necessidades e encontrar maneiras mais conscientes de construir a vida que queremos.
Afinal, viver fora do automático também significa isso:
parar de fazer tudo no piloto automático e começar a escolher, de verdade, como queremos viver.
E talvez seja justamente nesse caminho que o autoconhecimento começa.
Leia também:
Procrastinação e autocrítica: quando a culpa começa a tirar o brilho da vida.
Autoconhecimento: voltando para onde nunca deveríamos ter saído.
Qual é o meu propósito de vida? Como descobrir o que realmente faz sentido.







