Recomeçar depois de fracassar é uma daquelas coisas que parecem muito fáceis quando estamos olhando a situação de fora.
É fácil dizer para alguém: “Levanta, tenta novamente”.
É fácil falar que uma tentativa que não deu certo não significa o fim.
Mas quando somos nós que estamos ali, vivendo a frustração, parece que as coisas não são tão simples assim.
Você, assim como eu, já deve ter se perguntado muitas vezes: “Como eu vou começar de novo depois disso?”.
Eu já pensei muito sobre isso.
E, para ser sincera, às vezes acho que a palavra fracasso nem deveria existir no nosso vocabulário.
Porque basta alguma coisa não sair como planejamos para começarmos a olhar para nós mesmos como se tivéssemos falhado por completo.
O problema é que uma coisa não deu certo, mas dentro da nossa cabeça parece que nós não demos certo.
E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.
Só que, quando estamos decepcionados, nem sempre conseguimos enxergar.
Depois de uma tentativa frustrada, começa uma verdadeira conversa dentro da nossa cabeça.
A autocrítica logo aparece: “Você não é bom o suficiente”.
O medo responde: “Eu falei que você não ia conseguir”.
E, quando percebemos, estamos ali no meio de um conflito interno, tentando entender se devemos levantar ou simplesmente desistir.
Quando a autocrítica começa a falar mais alto
Eu não sei se acontece com você, mas comigo é muito fácil olhar para aquilo que não deu certo e esquecer completamente das vezes em que tentei.
Parece que o erro ganha um tamanho enorme, enquanto todo o esforço que existiu antes dele desaparece.
É como se uma tentativa fosse suficiente para colocar em dúvida tudo aquilo que eu acreditava sobre mim.
E talvez seja justamente nesse momento que a autocrítica se torna mais perigosa.
Porque ela não aparece apenas para analisar o que aconteceu.
Ela começa a questionar quem somos.
“Você deveria ter feito diferente.”
“Você sabia que não ia conseguir.”
“Por que foi tentar?”
“Era melhor ter ficado onde estava.”
E por aí vai.
Quando percebemos, estamos acreditando em coisas que talvez nunca diríamos para outra pessoa.
Se alguém que gostamos fracassasse, provavelmente tentaríamos acolher, conversar e dizer que aquilo não define a vida dela.
Mas quando somos nós, parece que a cobrança precisa ser muito maior.
Depois do fracasso, existe um lugar onde a gente se perde
Depois de fracassar, muitas vezes parece que vamos parar no fundo do poço.
E talvez o mais difícil não seja somente aquilo que aconteceu, mas tudo o que começa a acontecer dentro da gente depois.
A gente sente vergonha.
Sente medo.
Sente raiva.
Sente tristeza.
Começa a pensar demais.
Repassa a situação várias vezes na cabeça, imaginando o que poderia ter sido diferente.
E quanto mais pensamos, mais difícil parece sair daquele lugar.
E é justamente aí que, muitas vezes, entra a procrastinação.
Porque quando estamos machucados, adiar pode parecer mais confortável.
Se eu não começar hoje, não preciso correr o risco de errar hoje.
Se eu não tentar novamente, não preciso descobrir se vou conseguir ou não.
Então deixamos para amanhã.
Amanhã vira depois de amanhã.
Depois de amanhã vira semana que vem.
E, quando percebemos, estamos há muito tempo parados no mesmo lugar.
Desistir parece mais fácil quando estamos cansados
Eu entendo por que desistir parece tão tentador depois de uma frustração.
Quando você já tentou alguma coisa e não conseguiu, começar novamente parece exigir uma força que naquele momento você não tem.
É muito mais confortável pensar: “Talvez isso não seja para mim”.
Pelo menos, assim, não precisamos enfrentar novamente aquela sensação de fracasso.
Só que existe uma pergunta que, em algum momento, precisamos fazer para nós mesmos: eu realmente desisti porque não quero mais isso ou estou desistindo porque tenho medo de tentar novamente?
São coisas diferentes.
Talvez você realmente tenha percebido que aquele caminho não faz mais sentido.
E tudo bem.
Nem todo sonho precisa ser levado até o fim.
Nem toda tentativa precisa ser repetida.
Mas talvez você ainda queira aquilo.
Talvez aquilo ainda faça sentido para você.
Talvez o que esteja fazendo você desistir não seja a falta de vontade, mas o medo de sentir novamente a dor de não conseguir.
E reconhecer essa diferença pode mudar muita coisa.
Recomeçar não significa fingir que nada aconteceu

Durante muito tempo, eu pensei que recomeçar significava simplesmente esquecer o que aconteceu e seguir em frente.
Como se eu tivesse que acordar no dia seguinte sem medo, sem tristeza e sem nenhuma dúvida.
Hoje penso diferente.
Recomeçar não é apagar aquilo que aconteceu.
É levar a experiência comigo, mas não permitir que ela decida todo o meu futuro.
Se algo deu errado, eu posso olhar para aquilo e tentar entender o que aconteceu.
Posso reconhecer meus erros.
Posso perceber o que eu faria diferente.
Posso admitir que talvez não estivesse preparada.
Posso até reconhecer que coloquei expectativas demais em uma única tentativa.
Mas eu não preciso transformar tudo isso em uma sentença contra mim mesma.
Eu posso dizer: “Não deu certo”.
Sem precisar dizer: “Eu não sou capaz”.
Talvez essa seja uma das coisas mais importantes que precisamos aprender quando pensamos em recomeçar depois de fracassar.
E se o fracasso não for o fim?
Talvez nós tenhamos aprendido a enxergar o fracasso como uma espécie de ponto final.
Deu errado.
Acabou.
Não consegui.
Então não adianta mais.
Mas será que precisa ser assim?
Às vezes, uma tentativa que não deu certo apenas mostra que aquele caminho precisava ser diferente.
Talvez fosse necessário mais tempo.
Mais preparação.
Mais conhecimento.
Talvez fosse necessário mudar alguma coisa que, naquele momento, ainda não conseguíamos enxergar.
Não estou dizendo que todo fracasso tem uma grande lição escondida.
Às vezes, as coisas simplesmente dão errado. E acho importante não romantizar isso.
Fracassar dói.
Perder dói.
Ser rejeitado dói.
Ver algo que desejávamos não acontecer dói.
Mas sentir dor não significa que precisamos morar nela para sempre.
Em algum momento, depois de chorar, reclamar, ficar triste e até querer desistir, precisamos começar a olhar para a frente novamente.
Pequenos passos também são recomeços
Talvez um dos maiores erros que cometemos seja achar que, para recomeçar, precisamos fazer tudo de uma vez.
Depois de uma grande frustração, queremos voltar com força total.
Queremos recuperar o tempo perdido, compensar aquilo que não fizemos e provar para nós mesmos que somos capazes.
Só que nem sempre funciona assim.
Às vezes, recomeçar é simplesmente levantar da cama e fazer uma coisa que você estava adiando.
É abrir aquele projeto novamente.
É estudar por alguns minutos.
É mandar uma mensagem.
É organizar seus pensamentos.
É escrever uma nova ideia.
É tentar mais uma vez, mas dessa vez sem exigir que tudo dê certo imediatamente.
Porque talvez você não precise reconstruir a sua vida inteira hoje.
Talvez precise apenas dar o próximo passo.
O medo vai continuar dizendo que você não consegue
Uma coisa que tenho percebido é que esperar o medo desaparecer completamente pode nos fazer esperar para sempre.
O medo provavelmente vai continuar aparecendo.
Quando você decidir tentar novamente, ele pode aparecer.
Quando começar algo novo, ele pode aparecer.
Quando estiver quase conseguindo, ele pode aparecer também.
E talvez a questão não seja fazer o medo desaparecer, mas aprender a não deixar que ele tome todas as decisões por nós.
Aquela voz dizendo “eu avisei que você não conseguiria” pode continuar existindo.
Mas talvez você possa responder: “Dessa vez eu quero tentar mesmo assim”.
Não porque tenha certeza de que vai dar certo.
Mas porque também não tem certeza de que vai dar errado.
E essa possibilidade já é suficiente para dar mais um passo.
Talvez você precise tentar novamente

Depois de tudo isso, talvez eu ainda não tenha uma resposta perfeita para a pergunta: “Como recomeçar depois de fracassar?”.
Na verdade, acho que ninguém tem.
Cada pessoa vai encontrar o seu próprio jeito de levantar.
Algumas precisarão de tempo.
Outras precisarão conversar.
Algumas vão precisar mudar de caminho.
Outras vão precisar tentar exatamente aquilo que não conseguiram fazer antes.
Mas existe uma coisa que eu acredito: não precisamos desistir de nós mesmos só porque alguma coisa deu errado.
Talvez amanhã você ainda acorde triste.
Talvez ainda tenha medo.
Talvez ainda pense naquilo que aconteceu.
Mas talvez, em algum momento do dia, você perceba que aquele lugar onde está não é mais um lugar em que deseja permanecer.
E então você tenta.
Não porque deixou de ter medo.
Não porque tem certeza de que agora tudo vai funcionar.
Não porque finalmente se tornou uma pessoa forte e corajosa.
Você tenta porque, apesar de tudo, ainda existe alguma coisa dentro de você dizendo que não acabou.
E talvez seja isso que seja recomeçar.
Não voltar para quem você era antes.
Não fingir que nada aconteceu.
Não apagar o fracasso.
Mas olhar para tudo aquilo que aconteceu e dizer:
“Tudo bem. Não deu certo dessa vez. Mas eu ainda estou aqui.”
E enquanto você ainda estiver aqui, talvez exista mais uma tentativa possível.
Mais um caminho.
Mais um começo.
Mais uma oportunidade de fazer diferente.
Porque, às vezes, a vida não pede que a gente tenha certeza.
Ela só pede que a gente não desista de tentar.








