Quando as angústias por dentro começam a pesar por fora

Durante muto tempo, eu não conseguia entender o que estava acontecendo comigo.

Minhas angústias estavam começando a pesar de uma forma que eu já não conseguia ignorar.

Por fora, eu tentava seguir a rotina normalmente.

Por dentro, porém, havia um cansaço que parecia não ter fim, uma mistura de frustração, preocupação e pensamentos que eu carregava comigo todos os dias.

Havia cansaço, dores, desconfortos e uma sensação constante de que alguma coisa não estava bem.

Eu procurava respostas no corpo porque era ali que muitas vezes o sofrimento se tornava mais perceptível.

O estômago começou a reclamar, vieram as ânsias, depois o refluxo, a queimação, os gases e outros desconfortos.

Enquanto eu tentava descobrir o que estava causando tudo aquilo, por dentro também existia uma mistura de angústia, frustração, autocobrança e preocupação constante.

Hoje consigo olhar para aquela experiência e perceber que corpo e emoções estavam presentes na mesma história.

Isso não significa que todo sintoma físico seja causado por emoções, nem que problemas de saúde devam ser tratados apenas como questões emocionais.

Significa apenas que, na minha experiência, não fazia sentido olhar para o sofrimento como se corpo e emoções fossem mundos completamente separados.

Às vezes, aquilo que sentimos por dentro não fica apenas nos nossos pensamentos.

A tensão pode acompanhar os nossos dias, a preocupação pode alterar a maneira como vivemos uma situação e o sofrimento pode fazer com que o próprio corpo pareça mais pesado.

Foi assim que comecei a perceber que cuidar de mim precisaria envolver não apenas aquilo que eu sentia fisicamente, mas também aquilo que estava acontecendo dentro de mim.

Quando a angústia começou a aparecer no meu corpo

Um dos primeiros sinais que percebi foi no estômago. Comecei a sentir azia e queimação diariamente.

Com o passar dos anos, vieram refluxo, gases, intolerância à lactose e muitas dores pelo corpo.

Aos poucos, parecia que alguma coisa nova surgia para ocupar o espaço daquilo que eu já estava enfrentando.

Procurei atendimento médico diversas vezes e recebia orientações diferentes.

Em determinado momento, minha alimentação ficou cada vez mais restrita.

Eu tirava uma coisa, depois outra, mudava os hábitos e esperava por alguma melhora.

Mas ela não vinha da maneira que eu imaginava.

Lembro que durante a manhã eu até conseguia ficar relativamente bem.

Mas, depois do almoço, a azia, a queimação e os gases se tornaram companheiros fiéis.

Chegou um momento em que nada que eu fizesse parecia resolver aquela sensação da maneira que eu esperava.

E foi aí que uma coisa ainda mais difícil aconteceu: comecei a ter medo de comer. Eu sabia que, depois de comer, poderia vir o desconforto.

Aquilo mexia comigo de uma maneira que ia muito além do desconforto físico.

Quando tudo parece estar acontecendo ao mesmo tempo

É difícil explicar o que acontece quando você está tentando lidar com muitas coisas ao mesmo tempo.

Por fora, talvez as pessoas enxerguem apenas alguém cansado, preocupado ou indisposto.

Por dentro, existe uma quantidade enorme de pensamentos acontecendo.

No meu caso, havia angústias, por não conseguir mudar algumas coisas na minha vida e uma cobrança constante comigo mesma.

Eu queria fazer, resolver, ajudar, estar disponível e dar conta de tudo.

Só que, ao mesmo tempo, sentia que não conseguia avançar como gostaria.

Era como se eu estivesse sempre devendo alguma coisa para mim mesma.

Se eu descansava, sentia culpa.

Se não conseguia cumprir alguma tarefa, me criticava.

Se precisava dizer não para alguém, imaginava que estava sendo uma pessoa ruim.

E essa cobrança constante vai cansando.

Não necessariamente de uma vez.

Às vezes, ela vai ocupando pequenos espaços todos os dias, até que você percebe que está exausto de tentar ser tudo para todo mundo e ainda cobrar de si mesmo que esteja bem.

A angústia também fazia parte da minha história

Angústia
Fonte: Vivendo fora do automático

 

Durante muito tempo, eu acreditava que precisava conseguir resolver tudo.

Se alguém precisava de ajuda, eu estava disponível.

Se alguém tinha um problema, eu tentava encontrar uma solução.

Eu me preocupava com familiares, amigos e conhecidos e, muitas vezes, colocava as necessidades dos outros à frente das minhas.

A intenção era boa.

Eu queria ajudar.

Queria estar presente.

Queria ser alguém com quem os outros pudessem contar.

O problema é que, aos poucos, fui percebendo que existe uma diferença entre ajudar alguém e assumir para si problemas que não são seus.

Foi nesse período que ouvi uma frase de um conhecido que ficou marcada em mim: “Não se esforce para ajudar alguém mais do que a própria pessoa está se esforçando.”

Naquele momento, não consegui nem esboçar uma reação.

Aquela frase simplesmente caiu como uma luva naquilo que eu estava vivendo.

Era como se alguém tivesse colocado em palavras algo que eu ainda não conseguia enxergar.

Aprender a dizer não

Depois daquele dia, comecei a tentar praticar uma coisa que parecia simples, mas que para mim era extremamente difícil: dizer não.

E descobri que o problema nem sempre são as outras pessoas.

Muitas vezes, o maior desafio está dentro de nós.

Eu ficava imaginando o que iriam pensar.

Será que achariam que eu era egoísta?

Será que pensariam que eu era uma pessoa ruim?

Será que alguém ficaria decepcionado comigo?

Dizer não parecia carregar um peso enorme.

Só que, pouco a pouco, fui entendendo que colocar limites não significa deixar de se importar com os outros.

Significa também reconhecer que eu tenho limites, necessidades e uma vida que precisa ser cuidada.

Foi um processo.

Não aconteceu de um dia para o outro.

E ainda hoje acredito que estabelecer limites é uma prática, não uma transformação instantânea.

Algumas situações continuam sendo difíceis, mas hoje consigo enxergar que dizer não também pode ser uma forma de dizer sim para mim.

Você não precisa se abandonar para ajudar alguém

Existe uma diferença entre ser uma pessoa disponível e viver permanentemente disponível.

Essa diferença pode parecer pequena, mas muda completamente a maneira como nos relacionamos com os outros.

Quando estamos acostumados a resolver problemas, podemos começar a acreditar que somos responsáveis pelo bem-estar de todo mundo.

Só que ninguém consegue sustentar esse papel indefinidamente.

Em algum momento, o próprio corpo, a mente ou a rotina podem mostrar que existe um limite.

Algumas perguntas podem ajudar nesse processo:

  • Estou ajudando porque realmente quero ou porque tenho medo de dizer não?
  • Estou assumindo uma responsabilidade que pertence a outra pessoa?
  • Estou deixando minhas necessidades sempre para depois?
  • Sinto culpa quando faço algo por mim?
  • Estou tentando resolver um problema que a outra pessoa nem está tentando resolver?
  • O que aconteceria se eu simplesmente dissesse não?

Essas perguntas não servem para transformar todas as relações em uma conta matemática.

Elas servem para criar uma pausa.

Às vezes, precisamos parar de responder automaticamente para conseguir perceber o que realmente estamos escolhendo.

A angústia também me ensinou sobre limites

Hoje, quando penso naquele período, não consigo separar completamente a pessoa que eu era das coisas que estava vivendo.

A frustração, a autocobrança e a necessidade de estar sempre disponível faziam parte de uma fase em que eu ainda estava aprendendo a reconhecer meus próprios limites.

Não digo isso para afirmar que tudo aquilo que senti fisicamente tinha uma única causa.

Não tenho essa resposta, e acredito que experiências de saúde precisam ser avaliadas individualmente por profissionais.

O que posso dizer é que aquela fase me fez perceber que eu não estava olhando apenas para uma parte da minha vida.

Eu estava tentando cuidar de muitas coisas externas enquanto deixava algumas necessidades internas esperando.

Queria ajudar todo mundo, mas nem sempre conseguia parar para perguntar como eu estava.

Queria resolver problemas, mas tinha dificuldade de reconhecer os meus próprios.

Talvez essa tenha sido uma das maiores mudanças daquele período: entender que cuidar de mim não era abandonar ninguém.

Pelo contrário.

Eu precisava aprender que também fazia parte da minha responsabilidade olhar para mim com a mesma atenção que tantas vezes oferecia aos outros.

Talvez você também esteja precisando se escolher

Angústia
Fonte: Vivendo fora do automático

 

Talvez exista alguma área da sua vida em que você esteja dizendo sim enquanto gostaria de dizer não.

Talvez esteja tentando resolver problemas que não são seus.

Talvez esteja se cobrando por não conseguir fazer tudo ou tentando cuidar de todo mundo enquanto deixa a própria vida para depois.

Não estou dizendo que você deve simplesmente parar de ajudar as pessoas.

A questão é outra: até onde você consegue ir sem se abandonar no caminho?

Minha experiência me ensinou que reconhecer os próprios limites não é egoísmo. É perceber que você também merece cuidado.

E que algumas mudanças começam justamente quando paramos de tentar controlar tudo ao nosso redor e começamos a prestar atenção ao que está acontecendo dentro de nós.

A minha história não tem a intenção de oferecer respostas prontas.

Ela é apenas um pedaço do caminho que percorri.

Uma lembrança de que, às vezes, precisamos diminuir o ritmo, observar nossas escolhas e perguntar honestamente: quanto de mim estou entregando aos outros e quanto de mim estou deixando para depois?

Talvez essa pergunta não resolva tudo.

Mas pode ser o começo de uma mudança.

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Por aqui, compartilho reflexões sobre propósito, autoconhecimento, mudanças, hábitos, procrastinação e os desafios de viver uma vida que realmente faça sentido.

Não tenho todas as respostas. Estou aprendendo enquanto caminho.

E talvez seja justamente isso que significa, para mim, viver fora do automático: parar, olhar para dentro e começar a fazer escolhas mais conscientes.

Fique à vontade.

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