Fui crescendo e me perdendo da minha essência: quando deixamos de ser quem somos.

Você já teve a sensação de que, em algum momento da vida, deixou de ser a pessoa que costumava ser?

Talvez você não consiga apontar exatamente quando aconteceu, mas percebe que aquela criança cheia de imaginação, curiosidade, coragem e vontade de experimentar coisas novas parece ter ficado em algum lugar do caminho.

Por muito tempo, achei que algumas características simplesmente desapareciam conforme a gente crescia.

 A criatividade diminui.

A espontaneidade muda.

Os sonhos ficam mais realistas.

A gente amadurece.

Mas será que amadurecer significa necessariamente deixar partes de nós para trás?

Hoje, olhando para minha própria história, começo a perceber que talvez eu não tenha simplesmente mudado.

Talvez, ao longo do caminho, eu tenha me adaptado tanto às expectativas dos outros que, aos poucos, comecei a perder a essência que sempre existiu dentro de mim.

E, aos poucos, eu tenha aprendido a esconder algumas partes de mim porque elas nem sempre eram compreendidas, ouvidas ou valorizadas.

Eu sempre fui intensa com aquilo que fazia

Desde que me entendo por gente, sempre fui muito intensa com tudo aquilo que fazia.

Até as coisas que pareciam simples para outras pessoas ganhavam uma dimensão diferente para mim.

Lembro, por exemplo, das apresentações da escola.

Para algumas pessoas, uma apresentação era apenas uma apresentação.

Era pegar o conteúdo, preparar alguma coisa, ir até a frente da sala e falar.

Para mim, não.

Eu queria transformar aquele momento em alguma coisa maior.

Queria planejar, criar, pensar em maneiras diferentes de apresentar o conteúdo.

Não queria simplesmente ficar diante da turma lendo o que estava escrito no caderno.

Eu queria fazer diferente.

Pensava em transformar a apresentação em uma pequena peça teatral, criar cartazes, fazer brincadeiras para chamar a atenção dos colegas e, quem sabe, terminar com alguma reflexão.

Eu queria que aquele momento tivesse significado.

E, naquela época, talvez eu nem soubesse explicar por quê.

Eu simplesmente era assim.

Era uma criança criativa, curiosa e cheia de ideias.

Uma criança que gostava de imaginar possibilidades.

Uma criança que não enxergava apenas o que estava diante dela, mas pensava: “E se a gente fizesse de outro jeito?”

Nem todo mundo entendia o meu jeito

O problema é que nem sempre as outras pessoas pensavam da mesma maneira.

Muitas vezes, quando eu apresentava uma ideia, a resposta era algo como:

“É mais fácil fazer do jeito tradicional.”

Ou então minhas ideias pareciam exageradas, complicadas ou até mesmo “mirabolantes” demais.

E, de certa forma, eu entendia.

Era realmente mais fácil fazer o tradicional.

Era mais rápido.

Dava menos trabalho.

Exigia menos planejamento.

Mas, para mim, fazer daquele jeito não tinha a mesma graça.

Eu queria criar.

Queria participar.

Queria colocar um pouco de mim naquilo que estava fazendo.

Só que, quando você percebe repetidamente que suas ideias não são acolhidas, alguma coisa começa a acontecer dentro de você.

Primeiro, você insiste.

Depois, começa a questionar.

E, finalmente, pode começar a se calar.

Como começamos a perder a essência?

Perder-a-Essência
Fonte: Vivendo Fora do Automático

 

Acredito que ninguém acorda um dia e decide:

“A partir de hoje, vou deixar de ser eu.”

O problema não é mudar ao longo da vida.

O problema acontece quando, tentando caber no mundo, começamos a perder a essência que nos tornava únicos.

Isso vai acontecendo aos poucos.

Acontece quando você compartilha uma ideia e alguém ridiculariza.

Quando demonstra uma característica sua e percebe que ela incomoda.

Quando tenta fazer algo diferente e escuta que está complicando o que poderia ser simples.

Quando mostra um sonho e alguém diz que aquilo não é realista.

Quando você percebe que ser como os outros parece ser mais fácil do que explicar constantemente por que você é diferente.

E então começa a adaptação.

Você pensa duas vezes antes de falar.

Deixa uma ideia guardada.

Desiste de uma sugestão.

Para de mostrar aquilo que gosta.

Começa a observar o que os outros fazem e tenta fazer igual.

Não necessariamente porque quer, mas porque ser diferente pode começar a cansar.

E, sem perceber, você vai se moldando.

O perigo de se moldar para caber

Existe uma diferença entre amadurecer e abandonar quem você é.

Amadurecer significa aprender, mudar, reconhecer erros, desenvolver novas habilidades e compreender que nem tudo precisa acontecer da maneira que imaginamos.

Mas se adaptar o tempo inteiro para ser aceita pode ser outra coisa.

Quando passamos muito tempo tentando caber nas expectativas dos outros, podemos chegar a um ponto em que já não sabemos mais o que realmente queremos.

Quem eu era antes de começar a tentar ser aquilo que esperavam de mim?”

Hoje, quando penso naquela criança, percebo que muitas características ainda estavam ali.

A criatividade.

A intensidade.

A vontade de fazer diferente.

A necessidade de encontrar significado nas coisas.

A curiosidade.

A imaginação.

Só que, em algum momento, eu comecei a enxergar essas características de outra maneira.

O que antes era criatividade poderia parecer exagero.

O que antes era intensidade poderia parecer demais.

O que antes era imaginação poderia parecer falta de praticidade.

E aquilo que fazia parte da minha essência começou a ser colocado em segundo plano.

Talvez seja assim que a gente vá se perdendo de si mesmo.

Não porque deixa de ser quem é, mas porque começa a acreditar que determinadas partes de nós não são adequadas para o mundo.

Então, escondemos.

Controlamos.

Diminuímos.

Até que chega um momento em que olhamos para dentro e pensamos:

“Eu não me reconheço mais.”

Talvez você não tenha perdido sua essência

Existe algo que tenho aprendido nesse processo: talvez algumas partes de nós nunca desapareçam completamente.

Elas podem ficar escondidas.

Podem ser silenciadas.

Podem passar anos sem receber espaço.

Mas isso não significa que deixaram de existir.

Talvez aquela criança criativa ainda esteja aí.

Talvez aquela pessoa que gostava de inventar, criar, imaginar e fazer diferente ainda exista dentro de você.

Talvez ela só esteja esperando que você volte a escutá-la.

E isso não significa voltar a ser criança.

Significa recuperar características que fazem parte da sua identidade e que foram deixadas de lado ao longo da vida.

É possível amadurecer sem abandonar a própria essência.

É possível aprender a ouvir opiniões diferentes sem deixar que elas determinem completamente quem somos.

É possível mudar sem desaparecer dentro da mudança.

O autoconhecimento também é um reencontro

Quando pensamos em autoconhecimento, muitas vezes imaginamos algo muito complexo.

Livros, testes, perguntas profundas, terapia, cursos, técnicas…

Tudo isso pode contribuir.

Mas o autoconhecimento também pode começar com uma pergunta simples:

“O que em mim eu deixei de viver?”

Talvez você descubra que gostava de escrever.

Que gostava de desenhar.

Que adorava conversar.

Que tinha vontade de criar projetos.

Que gostava de aprender coisas diferentes.

Que era uma pessoa curiosa.

Que tinha facilidade para organizar pessoas.

Que gostava de ensinar.

Que sonhava em conhecer o mundo.

Que tinha ideias que nunca teve coragem de colocar em prática.

Às vezes, reencontrar nossa essência começa justamente lembrando de pequenas coisas.

Não precisamos descobrir imediatamente uma grande missão de vida.

Podemos começar prestando atenção naquilo que desperta algo dentro de nós.

Você não precisa voltar a ser quem era

Talvez o objetivo não seja voltar a ser exatamente aquela criança.

Afinal, nós mudamos.

Vivemos experiências, enfrentamos dificuldades, aprendemos, erramos, acertamos e construímos novas versões de nós mesmos.

A questão não é voltar ao passado.

É trazer para o presente aquilo que ainda faz sentido.

Talvez eu não precise ser exatamente aquela menina das apresentações escolares.

Mas posso recuperar a criatividade dela.

Posso voltar a ter coragem para pensar diferente.

Posso permitir que minhas ideias existam mesmo quando alguém não concordar com elas.

Posso parar de considerar exagerado aquilo que simplesmente faz parte da minha maneira de enxergar o mundo.

Talvez se reencontrar consigo mesma não seja descobrir uma nova pessoa.

Fui-crescendo-e-me-perdendo-da-minha-essencia-quando-deixamos-de-ser-quem-somos.jpg
Fonte: Vivendo fora do automático

 

Talvez seja retirar, pouco a pouco, todas as camadas que fomos colocando sobre quem realmente somos.

Talvez crescer também seja aprender a voltar para dentro

Durante muito tempo, achei que crescer significava seguir em frente.

Hoje penso diferente.

Talvez crescer também seja olhar para trás de vez em quando e perguntar:

“O que ficou pelo caminho?”

Não para viver no passado.

Mas para reconhecer partes de nós que ainda podem fazer sentido no presente.

Talvez algumas versões antigas de nós tenham coisas importantes para nos ensinar.

A criança que brincava.

A adolescente que sonhava.

A pessoa que tinha coragem de imaginar possibilidades.

Todas essas versões contribuíram para quem somos hoje.

 

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